Tenho pra mim que pequenos milagrem acontecem todos os dias. E por serem assim tão imperceptíveis, a nossa alma, que de tanto sonhar já é quase irreal, não se atenta ao deslumbramento que se apresenta nas coisas comuns. Gosto de pensar em coisas comuns como pequenos milagres.

 

Quando meus olhos vêm uma pedra não é somente uma pedra. Se fosse assim, não haveria poesia nas pedras. Quando vejo uma pedra vejo sinuosidades e cores e sombras fugindo pelas reentrâncias. Vejo um acaso caprichoso de Deus milagreando o que poderia ter sido só uma pedra ao sol, se não fosse meu olhar: guloso. E as cebolas? Neruda têm um poema que se chama “ A Cebola” e ele a descreve como uma “rosa d'água com escamas de cristal". Depois de ler o poema do Neruda uma cebola nunca mais será a mesma coisa, uma cebola é um deslumbre. Um gomo de laranja... um assombro(o suco guardado em milhares de garrafinhas transparentes). As cores das frutas luzindo em dias de feira, os abraços que ganhamos sem pedir, o olhar dos cães vadios, o corpo sendo alisado pelo paladar, cada partícula do cotidiano deixando de ficar sem graça sob as ordens de um outro olhar: insistente.

 

Acho que por isso sonho pouco. Não tenho tempo de desejar o que ainda não alcancei. Meu olhar grato alcança todas as coisas milagrosamente comuns que cercam a vida.

 

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